Desvendando Estereogramas

Júlio M. Otuyama


Introdução

Estereogramas e pares estéreo são ilusões de superfícies tridimensionais. Diferente do holograma, que necessita de laser ou películas fotográficas especiais, estereogramas pode ser reproduzidos em uma tela de computador ou em uma impressora convencional. Porém, a visualização nem sempre é uma tarefa fácil.

Par Estéreo e Estereograma

Par Estéreo e Estereograma e baseiam-se em um mesmo principio: a capacidade do cérebro de detectar pequenas diferenças entre as imagens captadas por cada olho, o que gera a sensação de tridimensionalidade. Pares estéreo já eram estudados desde há muito tempo - Leonardo da Vinci quase descobriu os conceitos envolvidos na visualização de pares estereo. Mas somente Wheatstone descreveu corretamente os conceitos envolvidos na visualizacao estéreo. Desde o século XIX produziam-se pares estéreo, com equipamentos para auxiliar a visualização, como o estereoscópio. Estereogramas de pontos aleatórios são uma criação recente, desenvolvido por Bela Julezs, na década de 1970. Os Estereogramas causam um forte impacto devido a visualização de uma superfície oculta.

Par estéreo

Estereograma de pontos aleatórios (random dot stereogram)
Superfície oculta: quadrado

 

Visualização

Para que se consiga ver o estereograma (ter a sensação de profundidade da superfície), é necessário uma boa dose de paciência: cada olho deve mirar em pontos distintos da imagem. Esta forma de visualizar não é natural para nosso cérebro. Este é o motivo pelo qual muitas pessoas tem dificuldade para visualizá-los.

Há duas formas para visualização de estereogramas:

O direcionamento de cada olho (direito e esquerdo) para cada caso é ilustrado abaixo:

visualização normal - sem estereograma
visualização divergente de estereograma
visualização convergente de estereograma

Uma vez obtida a visualização divergente ou convergente, há uma nítida sensação de superfícies com profundidade.

Métodos para facilitar a visualização:

Como Funciona um Estereograma

Nosso cérebro possui a capacidade de perceber de forma intensa a tridimensionalidade do ambiente onde estamos. Um dos principais motivos disto são pequenas diferenças entre as imagens captadas por cada olho. As imagens são captadas simultaneamente, com um pequeno deslocamento entre os pontos de captura (a distância entre nossos olhos). Isto resulta em minúsculas diferenças nas imagens projetadas sobre a retina, quase imperceptíveis se analisadas separadamente, mas que carregam a informação de profundidade.

Gerando um Estereograma

A forma mais simples de compreender o funcionamento de um estereograma é construir um. A seguir, temos uma receita para gerar um estereograma de pontos aleatórios (adaptado do artigo de Bella Julesz).

Passos para constuir um Estereograma:
(a) Criar uma imagem com padrão de pontos aleatórios
 
(b) Duplicar a imagem e posicioná-las lado a lado
(c) Selecionar uma região de uma das imagens
(d) Deslocar lateralmente a região selecionada
O Estereograma está pronto!
A imagem oculta do estereograma é região deslocada lateralmente

Experimente em seu computador (MS Windows 3.x/95/98/me/NT/2000/XP/2003...)!

O experimento a seguir pode ser feito em seu computador em poucos instantes, e não necessita que você instale qualquer software adicional em seu computador.

A descrição é baseada em MS Windows / IE, porém pode ser facilmente adaptada para Linux, Macintosh, Etc.

Passos para constuir o seu Estereograma:
Salve a imagem ao abaixo em seu computador:

Abra a imagem com um programa de edição de imagens (Paint, Paintbrush, Photoshop, etc)

Selecione uma pequena região em uma das imagens, utilizando a ferramenta de seleção de regiões (geralmente o quadrado tracejado)
Desloque lateralmente esta região

A imagem resultante é um estereograma de pontos aletórios feito por você!
Dica: você pode selecionar qualquer tipo de região, inclusive em formato de letras (sim, o seu nome!). Mas estas regiões precisam ser largas o suficiente para que nosso cérebro consiga detectá-las.

Consequência do Deslocamento Lateral

As regiões deslocadas lateralmente no estereograma resultam em uma sensação de profundidade relativa mais distante ou mais próxima, dependendo de alguns fatores. Estes fatores são:

Abaixo é sumarizado os diversos fatores e o efeito obtido:

Visualização Divergente
  deslocamento lateral
para direita
deslocamento lateral
para esquerda
região selecionada
na imagem direita
profundidade relativa
mais distante
profundidade relativa
mais próxima
região selecionada
na imagem esquerda
profundidade relativa
mais próxima
profundidade relativa
mais distante

Note que na visualizalização convergente, ocorre efeito exatamente oposto ao da visualização divergente.

Visualização Convergente
  deslocamento lateral
para direita
deslocamento lateral
para esquerda
região selecionada
na imagem direita
profundidade relativa
mais próxima
profundidade relativa
mais distante
região selecionada
na imagem esquerda
profundidade relativa
mais distante
profundidade relativa
mais próxima

A capacidade de determinar a informação tridimensional a partir das disparidades é chamada de estereopsis. Uma característica típica de animais com capacidade de estereopsis é o posicionamento frontal dos olhos. Tal característica é típica de caçadores, tal como leões, gatos, gaviões, corujas. Isto é importante para sobrevivência de sua espécie pois tais animais precisam de uma correta percepção da distância da presa, o que representa o sucesso ou fracasso na captura da caça. Por outro lado, animais que tipicamente são presas de caçadores, tais como coelhos, gazelas ou roedores, têm olhos posicionados lateralmente, o que lhes dá uma fraca (ou nenhuma) percepção de distância, mas lhes permite observar continuamente praticamente tudo que há em sua volta para, ao menor sinal de perigo, bater em retirada

Muito Além do Jardim

A construção de estereogramas de pontos aleatórios é descrito no livro "Foundations of Cyclopean Perception" de Bela Julesz. A essência de seu trabalho vai muito além de entretenimento. Os resultados de suas pesquisas auxiliam a compreensão do funcionamento do cérebro. No artigo, Bela Julesz mostra que em um estereograma de pontos aleatórios:

Com isto, mostra-se que:

Bibliografia Recomendada

O Livro Eye, Brain and Vision de David Hubel é o melhor livro introdutório para quem deseja conhecer detalhes do funcionamento da visão humana. Apesar de possuir um conteúdo científico profundo, é escrito de forma leve e clara, simplesmente um clássico.